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A MÁGICA DO SALVADOR DA PÁTRIA

Escrito por em 9 de setembro de 2020

Houve um tempo em que as questões do futebol eram mais misteriosas, em que éramos surpreendidos pelas informações que filtrávamos, ávidos, dos jornais e programas tradicionais da Televisão ou do Rádio, em que respeitávamos jornalistas (ou melhor, não desconfiávamos dos maniqueísmos e das predileções que tão bem escondiam).

Vieram as redes sociais. E com ela, uma mudança de perspectiva, uma alteração de tom e colocou-se em xeque aqueles tradicionais veículos e “jornalistas” que se julgavam acima do bem e do mal, que criavam ou destruíam reputações; em síntese, foram postos a nu porque outras fontes existem.

Permitiu-se a criação de novas estruturas, uma nova dinâmica veio ao mundo e, como ela, novas formas de interação e comunicação, só que, de reboque, nasceram problemas que antigamente não existiam, um deles é a velocidade de reação, a ânsia de “ser o primeiro a trazer uma notícia” e isso trouxe muitas questões éticas e problemas de credibilidade.

Barrigadas não são coisa nova. A imprensa parisiense noticiou a morte de Napoleão ao menos duas vezes; eleições norte-americanas foram marcadas por anúncios precipitados de ganhadores e, no Brasil, por exemplo, tivemos por anos um dos magnatas da imprensa, Assis Chateaubriand, que usou seus veículos como maneira de angariar benesses e cultivar seus interesses. Assim, novidade não é a publicação de notícias sem sentido os trotes também se intensificaram. Tudo por conta da nova máxima que rege o meio “em nome da velocidade, sacrifica-se a qualidade, a verdade e a credibilidade”.

Por que as especulações? Porque basta um lançar e todos os demais vão na sanha de quererem parecer mais espertos e informados que os demais. A ideia da velocidade faz-lhes sacrificar a objetividade. Não pensam, não checam. Preferem correr e publicar e usam-se mutuamente de fonte, tipo pagar a fatura do master com visa e a do visa com master… O Fulano disse que ele vem. O Beltrano disse que ele vem. A fonte do Fulano é o Beltrano e a fonte do Beltrano é o Fulano… Os demais, então, começam a citar-se, e quanto mais menções há, mais citações do ventilado há, mesmo que, na origem, não haja qualquer verificação. E sobem as tendências, as menções, as hashtags, e a pequena especulação ou invenção torna-se monstruosa, ninguém mais lembrando como aconteceu ou de quem é a responsabilidade.

E as redes enchem-se de suposições, esquemas, idéias mirabolantes e teses sem sentido. Repito: gostaria de o ver Cavani a portar o Manto Sagrado Tricolor, mas ele não vem. Vocês não imaginam como eu quero estar errado e ser surpreendido pela notícia da vinda de Cavani. Mas não vai ser, todavia, por uma série de imperativos. Pode até ter sido uma “false flag”, um falso vazamento para desviar a atenção enquanto a verdadeira negociação desenrola-se em outro lugar e com outros atletas. Fontes seguras da família Cavani, do advogado do atleta e do próprio #Grêmio afastam a ideia.

E daí vamos à outra face da moeda: as especulações beirando a histeria que encheram as redes na sexta-feira, infladas em parte pela declaração de dirigente na véspera que falara em contratação de peso e por conta de um periodista portenho que afiançou saber mais do que efetivamente sabia vieram porque os gremistas estão cansados do que estão vendo em campo e querem mudanças e respostas. Assim, uma contratação de tamanha envergadura seria uma esperança de reversão da aridez que estamos presenciando em campo nos últimos jogos.

Se estivéssemos em um período mais profícuo, não teria sido a questão tão reverberada, mas diante da escassez de resultados e das performances indignas que presenciamos nas últimas partidas, uma contratação deste jaez inflamou as imaginações e as proporções tomadas foram gigantescas.

Notemos que mais do que de Cavani, o que precisamos é de técnica, estratégia e rendimento. Mais do que um nome estelar, precisamos de treinamento, fundamento e reaprender a posicionarmo-nos em campo. Não adianta Cavani em campo e não termos opções táticas ou vermos um deserto no meio de campo porque a teimosia substituiu a ciência e o bruxismo foi elevado ao altar da virtude esportiva!

Não nos adianta Cavani com deficiências profundas de marcação que permitem os adversários chegar à zaga com uma facilidade exasperante, não nos adianta o Cavani em um time afoito e apressado (e não veloz, como o técnico insiste: ter velocidade é diferente de estar com pressa e essa pressa e ansiedade são para mascarar o decréscimo de qualidade do Grêmio). Não nos adianta Cavani em um time cuja maior característica outrora, a qualidade do toque de bola, desapareceu submersa em uma onda de desatenção e falta de assertividade. Não adianta Cavani em um time que não finaliza e que insiste no toque para os lados e para trás, parecendo-nos ter medo de finalizar ou, simplesmente, chutar. Não adianta Cavani em um time que parece ter abdicado de toda técnica e carente de estratégia de jogo, tendo mostrado, nas últimas partidas, aquela irritante mania de chutão ao Deus-dará, bola para frente, e parecendo propaganda de loja de materiais de construção: só aparece chuveirinho. Não adianta, por fim, Cavani, em um time cujo preparo físico deixa a desejar e que, após quinze minutos, mostram deficiência gritante e falta de fôlego, remetendo, uma vez mais, àquela questão de estarem correndo de maneira errada, em verdadeiro desperdício de energia que leva ao inexorável sacrifício de qualidade.

Portanto, nobres gremistas, antes de pensarmos em Cavani, pensemos em vedar os vazamentos, em consertar a estrutura para que possamos receber quem quer que venha. Insisto: o sonho de um jogador hors pair como Cavani não nasce de uma necessidade real, mas, sim, de um hábito tão arraigado no subconsciente coletivo brasileiro: um salvador da pátria, o exército de um homem só… Notem que isso acontece no Brasil não só no futebol, mas em todos os setores, da política ao mundo artístico, aquele que tudo resolve, aquele que tudo fará. Quantos times brasileiros são estruturados em torno de um só jogador e quando se o perdem, fica aquele gosto amargo da orfandade. O que falta, então, à equipe do Grêmio não é um salvador da Pátria, mas, novamente, um técnico que pense estrategicamente, que não seja maestro de uma nota só. Não adianta, de modo algum, alguém aferrado nas próprias certezas, ainda que equivocada, refém do personagem que se moldou, prisioneiro da empáfia e teimosia. Precisamos alguém que, novamente, tenha visão de jogo, que saiba que não se pode esperar resultado diverso fazendo sempre a mesma coisa.

Li, uma vez, no jornal A Bola um artigo falando do técnico-coqueluche do momento, o tal Jorge Jesus (de quem não sou aficionado, au contraire), e uma vez que ele teria dito a um jogador que a bola fica-lhe nos pés por menos de 3 minutos por partida. E que a principal função dele seria ensiná-lo o que fazer durante os outros 87 minutos. Pois bem, aí ele tem razão. Precisamos de um treinador que mostre aos jogadores como se posicionar e agir os 90 minutos, que não deixe a equipe tornar-se um amontoado amorfo após 20 minutos de partida e que, principalmente, saiba armar o time e alterá-lo conscientemente, e não por conta das veleidades pessoais ou outros fatores pessoais. É disso que precisamos, não de salvador da Pátria. Não há mágica, há trabalho sério e apenas isso trará resultado.

FOTO: LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA


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