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OS SEGUNDOS DE LUCIDEZ DA MINHA MÃE

Written by em 1 de março de 2020

A relação que tenho com minha mãe é estranha. Aliás, pouca coisa em minha vida é normal. Mas vou focar nisso pra não me estender.

Ela é minha mãe, mas temos uma relação profissional. Só que esse enlace é meio absurdo. Quando tudo vai bem, sou “funcionário”. Quando aparecem os pepinos, abacaxis, e os espinhentos figos-da-índia, passo a ser “sócio”.
Ou seja, se não bato bem, tenho a quem puxar.

Essa metamorfose ambulante que me criou (visto que de meu pai levo pouco de positivo), é a principal responsável pela minha confusão mental, e pra falar a verdade, isso nem me incomoda.

Minha mãe não entende quase nada de futebol. Mas é muito Gremista. Talvez até mais do que eu. Ela não pode ouvir falar um ai do Imortal que, inconscientemente, levanta-se em armas, e destila veneno azul a quem quer que seja.

Enfim, dentro dessa “paixão”, existem momentos de lucidez. Às vezes. Sempre que o Renato renova o contrato por mais um ano (de filme de terror), ela diz ser favorável, “porque o Renato tirou a gente da m….., e nos deu títulos, blablabla”. Até concordo na hora, porque discordar dela é passar uma semana de inferno.

Mas as recentes temporadas, têm me mostrado uma realidade mais de acordo com minhas convicções do que com a “lucidez” dela.

Estamos em Março, e não fizemos nenhuma partida acima de nota 6 no ano. Renato não apresenta alternativas. Parece não saber o que fazer com os jogadores que tem. Ficamos atrás do Caxias (terceira divisão) na classificação do grupo, perdemos em casa e fora, 3×0 no agregado, merecendo perder de mais.

Grenal? Um primeiro tempo mais ou menos, um segundo em que, se o adversário fosse entre mais ou menos e quase bom, poderíamos ter tido pior sorte.

Entre esses flashes de lucidez da minha mãe, destaco alguns: “o importante era ganhar o Grenal…a final, pode perder”; “Gauchão serve pra que? Só pra machucar jogador!”. E a melhor de todas: o seu silêncio. Ela jamais silencia se acha que tem razão. E jamais entra no debate pra perder. Silenciou quando apontei os erros do Renato de dois anos pra cá, e não fez o menor esforço pra debater. Pelo que conheço dela, um acuse claro.

Hoje, findado o expediente, perguntei pra ela o que estava achando do Renato que ela “bancou”. Fez que não era com ela, até eu virar as costas pra ir pro quarto. Aí ouvi: “se for pra fazer esse tipo de fiasco, que vá embora e pronto!”.

Parei, desci dois degraus de escada, a fitei durante alguns segundos lavando a louça…e pensei comigo: “é, mãe velha. Nem você, que tanto defende, aguenta mais.”

Um sinal claro de que não estou sozinho. Quero sim que esse Renato saia. Pra seu lugar? O Renato de 2016, 2017. O Renato focado. O Renato treinador, e não motivador. O Renato de antes da estátua. O Renato que não gastava energia brigando com a IVI, nem dando letrinha. O Renato que escalava sempre os melhores, que não sentava no banco de reservas faltando meio segundo tempo, pra esbravejar com um fantasma que, apesar de não estar ali, aparecia fosforecente em sua retina.

Minha mãe não me falou nada disso. Seu olhar entregou. Ninguém no mundo defende mais o Renato e o Grêmio do que ela, embora às vezes em silêncio. Mas ela está finalmente vendo o mesmo que a maioria da torcida.

Quando se acessa um orelhão, há duas opções: falar ou desocupar pro próximo utilizar.

Aliás, um dos primeiros atos de lucidez de minha mãe, ainda quando eu era criança, foi esse ensinamento. Que apliquei à maioria das situações de minha vida.

E pra falar a verdade, isso jamais foi tão atual.
Entendo os que me criticam. Talvez um dia também tenham seus segundos de lucidez, tal qual eu e minha mãe amada.
Só assim teremos a chance de reviver os anos mágicos que embalaram os momentos de desilusão que tivemos, nos quais a lucidez era o que menos importava.

Foto: Grêmio


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